quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Viver não dói

Assim como a maioria das pessoas, não tive contato com a poesia nem com os poetas durante o período em que estudei. Passei a conhecer um pouco da literatura brasileira quando comecei a trabalhar em uma biblioteca. Descobri um mundo rico e de grande sensibilidade. Hoje, sou uma das poucas pessoas que curtem, que lêem e conhecem as obras e os autores nacionais. Continuo trabalhando em biblioteca e tenho contatos diretos com os usuários e observo o grande preconceito que todos têm com relação a autores nacionais. Meus Deus, quanta ignorância!! Preferem ler um best seller americano que, as vezes é um lixo cultural, a ler uma obra-prima de um autor nosso. Fazer o que não é mesmo? Só posso lamentar. E o pior, é ouvir das pessoas que a obra de tais autores nacionais são chatas, são bobas,os autores não são talentosos....no entanto, falam sem conhecimento. É como sempre argumento quando me deparo com essas afirmações: primeiro eu leio, analiso, absorvo e só depois julgo se a obra é boa ou não. Mas, deixando esse desabafo de lado, falei tudo isso só para dar o gancho sobre esse autor que passei a conhecer e me apaixonei de vez por sua obra, sua sensibilidade: Carlos Drummond de Andrade.

Me emociono cada vez que leio um poema seu, uma crônica, sua maneira gostosa de se contar uma história. A impressão que tenho é que o poeta em pessoa se encontra ao meu lado proseando comigo. Delícia total. Esse poema eu o encontrei ao acaso e, gostei tanto que guardei e hoje compartilho com vocês. Espero que gostem tanto quanto eu.



Definitivo, como tudo o que é simples.


Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?


O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.


Sofremos por quê?


Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projecções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos, todos os beijos cancelados, pela eternidade.


Sofremos, não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.


Sofremos, não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias e ela estivesse interessada em nos compreender.


Sofremos, não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.


Como aliviar a dor do que não foi vivido?


A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, faz perder também a felicidade.


A dor é inevitável. O sofrimento é opcional


(Carlos Drummond de Andrade)

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