sábado, 27 de fevereiro de 2010

Cotidiano

"Todo dia ela faz tudo sempre igual..."
Muriel despertou naquela manhã com o trecho da música de Chico Buarque na cabeça. Iniciou seu dia exatamente como todos os demais dias: sentou-se na cama, se espreguiçou bastante para acordar seu corpo, foi ao banheiro rápido e a seguir, foi para a cozinha.
Chegando lá, pôs o café pra fazer, o leite pra ferver, as fatias de pão de forma para tostar, arrumou a mesa para o café da manhã e correu para se arrumar para trabalhar.
Durante o trajeto entre sua casa e o trabalho, dentro da condução lotada, Muriel se pegou pensando no quanto sua vida era uma mesmice. Exatamente como na letra de Chico, todo dia ela fazia as mesmas coisas, passava pelas mesmas ruas, encontrava as mesmas pessoas (ou será rostos) na condução e, ao chegar a empresa, cumprimentava as mesmas pessoas. Todo santo dia!
Enquanto divagava sobre sua vida besta, sem querer, ela se viu olhando para uma pessoa que, no mínimo, podia-se classificar como esquisita.
Uma moça que encontrava-se sentada e que não parava de arrumar seus longos cabelos cacheados. Juntava tudo, enrolava e jogava num lado, dali a dois segundos, pegava os cabelos novamente, torcia do outro lado e jogava para o lado contrário. Dali a pouco, olhava-se no espelho e verificava sua maquiagem. Sossegava um pouco mas, logo a seguir começava todo o ritual de novo. E assim foi a viagem inteira. Por algum tempo Muriel passou a observar essa figura inusitada e a imaginar se a vida daquela moça seria igual a sua ou melhor. Será que passaria pelos mesmos problemas que ela? Será que ela teria um bom convívio com seu chefe? Será que sua família era legal ou chata como a sua? Após divagar bastante sobre a tal moça, Muriel passou a reparar num homem mais a frente que tinha um semblante carrancudo, fechado. Com um rosto marcado por linhas aprofundadas, vermelho de tanto sol que, com certeza não era de umas férias passadas em uma bela praia mas sim, do trabalho árduo na construção de sol a sol, ela novamente divagou.
No que será que ele está pensando agora? Nas suas dívidas pra pagar? Na sua mulher insatisfeita que fica lhe apurrinhando as ideias pra comprar uma cozinha nova pra casa? No filho mais velho que virou um baita de um vagabundo e não quer saber de trabalhar pra ajudar em casa? Ou será que está pensando na Zefa, sua amante, que parece que não anda muito satisfeita com sua performance sexual? Muriel começou a rir baixinho desse último pensamento.
Voltando seus olhos para o outro lado do corredor do ônibus, Muriel se deparou com um garoto de seus prováveis 18 ou 19 anos. Alto, magro, cabelos desfiados e um enorme franjão cobrindo metade de seu rosto. Branco feito talco, piercing no queixo, ouvia um som que o fazia se balançar.
Imediatamente, sua mente criativa passou a imaginar como seria a vida desse rapaz. Quais seus gostos, suas preocupações (se é que tinha alguma), sua família e sua namorada. Será que teria alguma? Ou seria gay? Subitamente por meio de um enorme solavanco, Muriel despertou de suas divagações sobre os outros pois havia chegado sua hora de descer do ônibus. Levantou, passou por todos e, ao descer, respirou fundo e renovada seguiu seu caminho cantarolando aquela canção que não saía de sua cabeça:
"Todo dia ela faz tudo sempre igual...."

Um comentário:

Daniel Savio disse...

Cada rosto conta uma história, as vezes o dono do rosto faz a sua própria história...

Fique com Deus, menina Roseli Pedroso.
Um abraço.