domingo, 8 de agosto de 2010

(Re)Lembrar o eterno menino-homem


Falar de meu pai, para mim, é como voltar no tempo e reviver todos os momentos em que passamos juntos durante boa parte de minha vida. Gozado, sempre que procuro trazer a lembrança de sua pessoa, me vem, não a figura do homem, e sim, o menino que ele sempre foi. E digo menino porque ele nunca deixou de ser um moleque levado, brincalhão, mas que trazia em seu íntimo, uma carência e uma insegurança que fazia todos, em especial minha mãe, a cuidá-lo, a protegê-lo dos males da vida. Independente de suas falhas, afinal era um ser humano, seu coração imenso e seu amor por todos sempre o fizeram um bom pai, um bom marido e um maravilhoso amigo de todas as horas. Fossem elas boas ou ruins. Quem teve o privilégio de tê-lo como amigo sabe do que falo. Por um amigo era capaz de dar a vida e tirar a roupa do corpo. Assim era o homem-menino Walter. Excelente contador de histórias, adorava sentar-se conosco após o jantar e nos contar histórias de sua infância e outras que, ou inventava ou havia ouvido em qualquer lugar.
Acredito até que isso eu herdei dele,pois adoro contar histórias, como vocês podem comprovar por aqui. De todos os seus filhos, eu fui a mais peralta e dei muito trabalho para ele. Adorava provocá-lo! Adorava vê-lo bravo comigo e quando sua paciência se esgotava, lá estava eu correndo feito um corisco com ele em meu encalço segurando um chinelo ou um cinto dobrado em dois pra me dar na bunda. Parecia até cena de pastelão. Danada que era, sempre corria pra casa de minha avô e ficava por trás dela para me proteger da ira do seu Walter. Minha avó, sempre paciente, solicitava ao meu pai que se acalmasse primeiro e que só depois conversasse comigo. E eu, por trás dela, ficava fazendo caretas e mímicas provocando mais ainda sua ira comigo. Lembro-me que certa vez ele retornou para casa e mais tarde, chorando no quarto com minha mãe, ele confidenciou que não sabia como lidar comigo pois eu sempre conseguia tirá-lo do sério. Pobre papai! Eu realmente não era fácil. Mas como o amava e o admirava! Não conseguia entender porque no período de Natal, ele costumava ficar sempre tão depressivo. Enquanto que para mim, o Natal representava alegria, festa, presentes e muita comida boa, para ele, parecia que só lhe restava chorar e ficar confinado em seu quarto. Não queria falar com ninguém. Isso, definitivamente durante toda minha infância foi um enigma que nunca consegui decifrar. Em minha adolescência, fui a típica rebelde e bati muito de frente com ele. Tínhamos altas brigas. E por um bom tempo nossa relação ficou bem estremecida. No entanto, resgatamos nossa boa e saudável relação justamente em seu período de doença. É impressionante como uma situação tão ruim e delicada quanto uma doença terminal possa servir para reatar relações, zerar divergências e fortalecer os laços familiares e amigos. Nos tornamos grandes companheiros e toda tarde saia direto do trabalho e vinha correndo para casa para ficar o resto do dia a lhe fazer companhia, conversar, dar-lhe alimento, aplicar-lhe as injeções e assistirmos TV juntos e darmos boas gargalhadas com o seriado que ele tanto amava que era a turma do Chaves.
Já faz tanto tempo...mas afinal o que é o tempo quando temos essa possibilidade de trazer o passado ao presente e assim, poder reviver aqueles bons momentos ao lado de quem amamos.
Não sofro pela sua ausência pois sempre o trago aqui, bem juntinho de meu peito, pulsando forte e firme e vivo sempre. É claro que, sua ausência física faz falta afinal, ainda somos pura matéria e daí, a necessidade de tocar, sentir, mas de qualquer forma, mantê-lo vivo em nossas lembranças é o que faz tornar imortal todos que amamos e que já se foram. E essa foi a forma que encontrei de homenageá-lo nessa data e trazê-lo ao nosso convívio novamente.
Abenção meu pai!

2 comentários:

Pedrita disse...

que linda homenagem. tb adoro o meu pai. mas eu me lembro sempre do jeito responsável, seguro. quase toda a segurança q tenho eu aprendi com ele. hj vamos jantar todos juntos. eu o vejo sempre, mas é sempre bom revê-lo. beijos, pedrita

Lunna Guedes disse...

Boa noite, chegando aos poucos, voltando pra perto dos amigos...
Deliciosa essa sua homenagem caríssima. Me deixou aqui com um sorriso de orelhas ao me lembrar da figura humana que fez parte da minha vida por tão pouco tempo. Foi especial e segue sendo porque sempre que olho para trás ele está lá esperando por mim.
Bacio