quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Arrumação


Tati mira seu reflexo no vidro da janela de seu quarto e pensa em seus desejos não realizados. Aos 38 anos, mulher em plena exuberância, sente-se profundamente frustrada. Enquanto a chuva desce torrencialmente lá fora, ela volta-se para seu interior e como uma faxineira, inicia a arrumação dos últimos acontecimentos em sua vida.

Amores pueris, amores fast, amores de fim de semana. Na área profissional também não estava muito bom. Pulou de emprego em emprego nos dez anos passados e mesmo hoje, trabalha numa função medíocre, numa empresa também medíocre obedecendo um chefe tão medíocre quanto o resto. Não se dá com sua família. Não visita seus pais há três anos e não vê sua irmã há um ano e meio. Não teem nada em comum. São estranhos que por absoluta coinciência, caíram na mesma rede familiar. Amigos então, nem pensar. Tati não tem muita paciência com as pessoas e por outro lado, as pessoas também não tem muita tolerância com seus devaneios.

Seu mais recente relacionamento escapou feito água por entre os dedos há uma semana. Chegou de forma encantadora, passou pela fase de pura e doce sedução e, num átimo de segundos, evaporou feito perfume barato. Não ligou mais, não escreveu mais e-mails, não entrou mais no messenger...sumiu! De início Tati se deseseperou. O que será que fiz de errado dessa vez? O que será que falei de errado? Será que me mostrei fácil demais? Ou será que me mostrei casta demais? Meus Deus! Será que tenho mal hálito e não percebi? Preciso marcar um dentista...Acho que ele deve ter me achado gorda. Ai Tati, olha só para essa imensidão de celulite! Não é a toa que ele saiu correndo e nem deu mais notícias. Está traumatizado mulher! Toma vergonha na cara e vai logo se matricular numa academia!

E esses vazinhos nas pernas! Tati suas pernas mais parecem os jardins suspensos da Babilônia! Vazinhos de violetas ainda por cima! Só se vê os roxinhos flutuando por toda perna!

Deus! Estou acabada enquanto mulher, enquanto ser humano! O que me resta da vida para se viver?

Senta-se à beira da janela e fica a observar a chuva lá fora. Carros passam espalhando água pra todo lado. Pessoas correm numa tentativa vã de escapar da chuva. Um passarinho solitário, assim como ela, equilibra-se num fio de alta tensão. Parece alheio a todo aguaceiro que cai. Num café, do outro lado da rua, um jovem casal ri descontraidamente também alheio aquilo tudo.

Volta a se concentrar em sí própria e, como um fio condutor de seus pensamentos, Tati passa a desfiar a velha colcha de linho que envolve a velha poltrona que fora um dia de sua avó Zenilda. Uma lembrança tão boa e doce que ela resolveu manter mesmo estando tão detonada pelo tempo. Poderia perfeitamente ter mandado forrar a velha poltrona mas aí, não seria mais a poltrona da nona. Que saudade da vó Zê, de suas cantorias enquanto cozinhava, de suas risadas escandalosas que eram como música para a pequena Tati. De seus carinhos quando caía e se machucava...

É vó, continuo me machucando e caindo sempre mas agora não tenho mais você por perto pra me consolar. Nem isso tenho mais. Encontra-se tão envolvida nesses pequenos fiapos de lembranças quando, de repente, ouve nítidamente a voz de sua nona falando:

É figlia, o querê das veiz nos emburrece! Ma que cose fà? Trate de ser felice! E não mude nunca esse teu jeito de ser. Mais cedo ou mais tarde encontra sua tampa da panela, éh?!

Com os olhos marejados, Tati olha por todo o quarto, sai, vai para a sala, para a minúscula cozinha, banheiro e nada. Constata que se encontra totalmente sozinha. Mas aquela voz parecia tão nítida, verdadeira! Volta para o quarto e senta-se na poltrona encolhida e enrolada na velha manta. Uma paz acolhedora lhe envolve e então se conscientiza que na realidade não é sua nona quem disse tal coisa mas sim, sua consciência que voltou mais lúcida do que nunca.

A chuva continua caindo lá fora mas aqui dentro, a paz retornou encerrando uma batalha íntima com o sono reparador dos que venceram. Merecidamente Tati descansa com um semblante de menina que outrora foi. Se vai mudar? Quem sabe. Se vai encontrar um grande amor? Pode ser. Reatará com sua família? Ninguém pode afirmar. Fará amigos de verdade? E por que não? A vida é isso. Todas as probabilidades são possíveis. É jogar pra ver.

3 comentários:

Simone Aline disse...

Lindo texto... e por vezes nos sentamos também a olhar a chuva e temos todos esses pensamentos... e graças a Deus nossa consciência sempre nos "salva"!!! Bjs

Sonhos & melodias disse...

Oi Simone obrigada pela visita e comentário. É sempre bom receber vocês.
Bjs

Daniel Savio disse...

Geralmente, a chuva é uma boa companhia para mim, mas ao ver a cronica, nem todos tem os mesmos sentimentos...

Fique com Deus, menina Roseli Pedroso.
Um abraço.