quarta-feira, 14 de março de 2012

Um pouco de poesia no ar


Quando estudava e fazia o fundamental II, nas aulas de português não conseguia entender o porque que se estudar poesia. Achava tão chato! Não via utilidade para isso. É claro que também não tive uma verdadeira aula sobre poesia e a professora nem se aprofundou no tema mostrando vários autores e suas obras. Na minha infanto ignorância, achava que toda poesia se resumia apenas em versos do tipo "Batatinha quando nasce / se esparrama pelo chão / menininha quando dorme / põe a mão no coração".
Os anos se passaram e acumulei e formei minha bagagem cultural. Mas foi somente há bem pouco tempo que passei a me aproximar, sentir e compreender a poesia e sua riqueza literária. Conheci algumas obras de Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Mario Quintana, Ferreira Gullar. Cheguei a ler os sonetos de Shakespeare. Lindos! Recentemente descobri os poemas lindos de Florbela Espanca e Fernando Pessoa. Confesso que esses dois me fizeram enxergar com outros olhos a poesia. Aos poucos fui me despindo do preconceito que tinha com relação a esse gênero literário. Hoje após alguns anos de intensa leitura, após um módulo de poesia com o excelente professor e poeta Edson Cruz e da constante troca de figurinhas com o poeta Ricardo Dias que tem me mostrado e ensinado os caminhos do poema e de sua construção, posso dizer de boca cheia que gosto, aprecio e admiro a obra em si e seus escritores. E confesso que sinto uma pitada de inveja branca daqueles que conseguem escrever belos, criativos e sensíveis poemas. Não consigo. Não tenho esse talento. Mas não me desespero por isso não. Prefiro ficar na arquibancada e curtir os diversos talentos que estão espalhados por aí. No mundo todo temos grandes poetas e grandes obras. E como é bom ler um poema e compreender sua essência, sua métrica, seu ritmo! E hoje, comemorando-se o Dia Nacional da Poesia, não poderia deixar passar em branco essa data. Deixo aqui minha homenagem a todos os poetas vivos e aos que já se imortalizaram pela obra deixada. Parabéns poetas por deixar nosso mundo mais lindo, mais lírico, mais artístico com suas sensibilidades à flor da pele. Abaixo alguns exemplos de poemas que compõem a riqueza do gênero.



Ternura


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Vinícius de MoraesSem vista

Singular, sentir não sentindo
ou sentimento inexpresso
de si mesmo, em vaso coberto
de resina e lótus e sons.

Nem viajar nem estar quedo
em lugar algum do mundo, só
o não saber que afinal se sabe
e, mais sabido, mais se ignora.
(Carlos Drummond de Andrade)

O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..

Fernando Pessoa

2 comentários:

Pedrita disse...

eu sempre gostei de poesia. beijos, pedrita

Lúcia Soares disse...

Adoro poesias, arrisco escrever algumas, mas na intuição, no calor do pensamento, pois já me esqeuci completamente de como se constrói um poema, ou um soneto, nada me lembro de métrica, etc. Mas acho que poesia é principalmente deixar o coração "falar".
(Roseli, você me visitou quando estava fechando meu blog e se colocou lá como seguidora, ainda brincou que era significativo ser a de número 200 - esta lá, no luciahsoares.blogspot.com, mas o blog já está desativado.
Agora voltei, final de fevereiro, e se quiser me dar o prazer, estou agora no Sem Medida: www.luciahsoares.com)
Abraço!