quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uma viagem inusitada

Se tem uma coisa que gosto de fazer quando ando em transportes públicos é observar as pessoas. É impressionante como captamos situações, histórias, cenas que dão excelentes contos ou crônicas. São uma verdadeira exposição de personagens que ficam expostos ao gosto do freguês. No caso, o escritor. Já fiz muito texto baseado em pessoas que observei em ônibus, metrô, nas filas de banco, em consultórios médicos e tantos outros lugares públicos. Outro dia, já tinha me acomodado no banco do ônibus que sempre pego para vir ao trabalho. Já tinha colocado meu fone de ouvido, ligado meu MP3, me posicionado par fechar os olhos e embarcar de boa na viagem. Mas uma pessoa me chamou a atenção.Era um rapaz de seus vinte e tantos anos. Bem apessoado, bem trajado, típico estudante universitário. Cabelos anelados e dourados, olhos azuis, boca bem feita e um corpo esculpido pela musculação. Usava uma calça jeans e um moletom de grife e um tênis idem. Enfim, um garotão que qualquer menina deve pagar umas para ser refém de seus belos olhos. Até eu, que nem sou chegada em paquerar um garotão parei em sua bela estampa.
Percebi que não eram só meus olhos que acompanhavam cada gesto que esse "modelo" da Armani fazia. Da mesma forma que eu, ele também ligou seu iPhone e em poucos minutos estava curtindo talvez um bom rock. Começou a gesticular como quem acompanhava uma melodia dando algumas batidas sincronizadas em sua cocha. Balançava sua cabeça pra frente e pra trás numa cadência contagiante. E lá iam as moçoilas do ônibus acompanhando extasiadas aquela criatura que caíra do céu para alegrar mais uma manhã rotineira. Aos poucos comecei a perceber que algumas meninas cochichavam entre si, dando risinhos nervosos de quem está bem excitada pelo sexo oposto. 
O ônibus deu partida e seguiu a viagem.
Minha cabeça seguiu a viagem através da imaginação e já comecei a traçar como seria a vida desse jovem bonitão. Apesar de estar andando de ônibus, mostrava ser um rapaz de boa formação educacional, cultural logo, deduzi que devia ser de uma classe média rebaixada atualmente mas que mantinha ainda um certo status de vida. E pensamento já identifiquei e até podia apostar com quem quisesse: ele estuda na universidade Mackenzie. Tinha certeza! fazia bem o tipo que ali estuda. Como já estudei lá também no século passado, conheço muito bem a"tchurma" de lá. Apostei até mais: identifiquei que curso devia fazer: arquitetura ou Design. O rapaz tinha se enquadrava muito bem nesses cursos. E assim fui eu mesma levantando perguntas e respondendo todas elas num jogo de adivinha delicioso. Até que...o caldo desandou!
Como se transformasse num outro personagem like a Dr. Hyde , o nosso tão belo Dr. Jekill transformou-se numa coisa medonha de se ver. Todas nós ali concentradas em apreciar tanta beleza e formosura ficamos literalmente de boca aberta acompanhando sua terrível transformação.
Monstruosamente, sacou de seu dedo indicador alongado - diga-se de passagem - e iniciou uma batalha medonha atrás de enormes e melequentos cotocos do nariz. Enfiou com uma destreza de poucos aquele enorme dedão quase que na totalidade de uma das narinas. E com uma violência incrível, revirava e cutucava fundo à caça de melecas endurecidas que prova. E como se não bastasse encontrar tais coisas, com um bem grandão na ponta do dedo, simplesmente passou pelo vidro da janela do ônibus. Foi um arregalo de olhos geral! Muitas levantaram e saíram de perto quase gorfando o café da manhã. Outras reviraram os olhos que até minutos atrás, reviravam de prazer, em puro asco. Algumas não se aguentaram e pronunciaram e m voz aguda e alta: "Oh meu Deus! Que nojo!
E outras, como eu, simplesmente caímos na risada muda e retornaram aos seus afazeres olhando a paisagem urbana, lendo um livro ou simplesmente fechando os olhos e procurando consolo no sono.
O resto da viagem, nenhuma moça mais ousou olhar para o lado do jovem rapaz que, na sua alienada vivência do que ocorria ao seu redor, continuou ainda um bom tempo fazendo sua higiene narigal finalizando com sua obra prima cristalizada no vidro da janela.
E eu pensei com meus botões:
"Tudo bem que temos de limpar o nariz de tanta sujeira que a própria poluição da cidade de São Paulo nos causa mas...francamente! Que falta de tato, de educação e de postura numa condução pública. Afinal, outras pessoas sentarão naquele banco e quantos dormindo, não acabam por encostar a cabeça exatamente naquela janela que agora, era um repositório de meleca seca! Eca!
Na hora a beleza física daquele ser evaporou feito éter e ficou apenas a lembrança de um enorme dedo num nariz ramelento. E assim, mais uma crônica se formou! Não é legal isso?

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