sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Mosaico de rancores

Se formos parar para analisar, a vida de toda pessoa já dá um bom romance. Terminei de ler um livro no qual identifiquei personagens muito bem descritos ali que me remeteu a pessoas reais. Livro esse que há tempos desejava ler e que finalmente no final do ano passado comprei e só agora em férias, consegui ler. 
E li numa tacada única.  Marcia Barbieri, a autora. Mosaico de rancores, o título do livro.

Marcia foi minha companheira do módulo de contos do curso de criação literária que fiz em meados de 2010. Desde lá, já admirava sua escrita. que percebia, já incomodava algumas pessoas. 
Já vou logo avisando: não é literatura de best seller nem Chic Lit. Sua escrita é para os leitores fortes e que admiram um texto denso, que muitas vezes choca pela crueza. Mas (pelo menos para mim), é um puta texto, uma baita história e nos trás grandes personagens que em muitos momentos, nos identificamos. 
E talvez aí, justamente aí, é que incomoda. Vivemos dias em que só é de bom tom nos apresentarmos "felizes", "realizados", "amados", "bonitos".

Os personagens de Marcia Barbieri tomam a via contrária a tudo isso e nos arrota na cara o Lado B de todo ser humano. 
E é justamente isso que me fascina!
Adoro anti-heróis, personagens que mostram sua verdadeira face expondo suas taras, seus medos, suas neuroses, sua humanidade.
E aqui, em Mosaico de rancores eles se expõe de forma arreganhada, sem pudores.
A história nos apresenta um casal que vive entre tapas e beijos e sexo e traições. Maria Luíza e Lúcio.
Ela, uma mulher passional, com traços característicos de esquizofrenia, que sente um ciúme louco do marido no qual, imagina que a trai com todas as mulheres que passam por ele. 
Por conta disso, ou talvez usando isso como uma boa desculpa, sai à rua e trai o marido descaradamente entrando em bares e fazendo sexo com estranhos.
Mais da metade do livro, é narrado sob a ótica pra lá de distorcida de Maria Luíza onde a escritora Marcia usa com maestria metáforas e uma linguagem ferida, ácida, mordaz para representar muito bem a confusão mental e o turbilhão de emoções mal resolvidas da protagonista.
Depois, de determinado ponto do livro até o final surpreendente, a história é vista sob a ótica de Lúcio e aí, a linguagem muda bastante deixando o leitor em dúvida. Quem é o mocinho da história e quem é o vilão?
Quem fantasia a realidade e quem a vive de fato? Ou, pensando melhor, as neuroses de ambos se entrelaçam num verdadeiro "mosaico de rancores" e de emoções nada resolvidas que nos envolve fazendo com que, ao término do livro, percamos o fôlego diante de tantas emoções afloradas.
Mais uma vez repito: não é leitura para qualquer leitor. Só para os mais fortes e que tenham uma visão ampla de literatura. E também que estejam dispostos a vivenciar um passeio numa montanha russa das mais cruéis e fascinantes. Garanto: você sentirá enjoo, vomitará algumas vezes, sentirá nojo, revirará os olhos diante de muitas cenas mas, sem dúvida, não passará por essa história indiferente. Impossível!
Essa é minha dica de leitura para quem deseja um livro fora do comum, uma literatura brasileira das boas! Altamente recomendável as almas fortes e com desejo de coisas novas. E guardem esse nome porque ela já está causando e muito com seu segundo romance ao qual já tenho em mãos mas ainda não li: A Puta.
Tenho certeza que muito em breve, ela será uma autora muito falada e lida por todos.

Sinopse:
Márcia Barbieri é detentora de uma prosa poética, giratória e alucinante. Neste romance, a maior parte da narração é da protagonista Maria Luíza, uma mulher de gênio forte, extremamente passional, cujo ciúme beira à loucura. Estilista, quase não sai do apartamento que divide com o marido Lúcio, um fotógrafo. 
O leitor é arrastado pela visão tortuosa e esquizofrênica de Maria Luíza. No entanto, nos últimos capítulos do livro toda sua narrativa será desmistificada pelo olhar de Lúcio, o qual revelará para o leitor um segredo sobre Maria Luíza, assim como mostrará como ele é sem a lente dessa mulher perversa. 
Mas será que podemos confiar em Lúcio ou ele é tão psicótico quanto a sua mulher? Em qual deles confiar?

Trecho de Mosaico de rancores:

"Vulvas vermelhas recordam a solidão antes do nascimento. Deflorações. O paraíso perdido de Milton. Clitóris na procura incessante do gozo. Línguas bipartidas. Cobras venenosas. Teu pau no meu sexo. Minha boca buscando alento no seu desprezo. Desafetos geram embriões. O amor é violento, afasta vértebras. Meninos estuprando realidades de quatro. A rosa corrompida dos ventos."
"Tateio meu corpo e finjo orgasmos. Clitóris e lábios não são suficientes. Gemidos me calcificam. Pedras em coma submergem. Faço dos meus lençóis o leito frágil do meu rio. Não há graça nem louvor nos meus suicídios diários."

Título: Mosaico de rancores
Autor: Marcia Barbieri
Editora: Terracota
Ano: 2013
Páginas: 200 ISBN: 8562370851

Um comentário:

Luma Rosa disse...

Oi, Roseli!
De certa forma a justificativa é o ciúmes do marido e esse é um ingrediente que todo homem controlador possui em menor ou maior grau. O ciúmes patológico pode levar a tragédias. Diria que o personagem gosta de viver perigosamente. Na vida real, brincar com o ciumento é como jogar alcool em fogueira. Gostei do argumento e já anotei o nome da escritora.
Obrigada pela presença no aniversário do "Luz" e pela companhia nesses anos...
Beijus,