Um minuto. Apenas um minuto é o suficiente para mudar o curso da vida. Não de uma vida mas, de muitas vidas.
E o que vale uma vida hoje? Qual seu valor de mercado? Um celular? Uma nota de dez, vinte, cem reais? Uma trepada não consentida? Uma opinião diferente da sua? Você ser do time adversário?
Quanto vale uma vida hoje? Quanto ela valia ontem ou no século passado?
Tais questões filosóficas passam rápido por minha mente toda vez que ouço ou leio alguma reportagem desse tipo.
Não sou adoradora da desgraça alheia. Muito pelo contrário, fugo de programas que exploram tragédias pessoais. No entanto, não tem como fugir delas principalmente quando tomam proporções gigantescas como foi o caso da menina Isabella, do empresário esquartejado pela esposa, dos pais que foram mortos pela própria filha e tantos outros casos que não temos por onde escapar. Ouvimos sobre eles em toda parte. Na condução, na fila de banco, no consultório médico, no salão de cabeleireiro através da manicure que ama falar da vida alheia e que, ao narrar os acontecimentos, seus olhos ganham um brilho anormal.
Acho graça ao mesmo tempo que lastimo ver o quanto a vida da maioria das pessoas são pobres e que a desgraça alheia dá um pouco de coloridio às suas desbotadas vidas.
Era muito jovem e ainda não me ligava às coisas da vida adulta quando aconteceu o assassinato de Claudia Lessin Rodrigues. Lembro-me perfeitamente da comoção nacional que foi. E olha que naquela época ainda nem existia a internet! Como em casa meu pai não permitia que assistíssemos essas notícias escabrosas, muita coisa só vim a saber bem mais tarde, já na fase adulta. Por um lado foi boa essa preocupação de meus pais em preservar nossa inocência diante de coisas tão brutais.
Hoje, observa-se uma banalização da violência. As crianças desde a mais tenra idade convivem até com uma certa naturalidade com o bombardeio de tantos acontecimentos violentos que ocorrem em nossa sociedade. Até acham graça e fazem piadas sobre fulano ou sicrano que barbaramente foi assassinado.
Piadinhas infames brotam nas redes sociais toda vez que algo incomum acontece. Pessoas têm verdadeiro prazer em ver fotos de corpos dilacerados, cérebros estourados, membros esquartejados. Vivemos numa sociedade que tem um prazer mórbido por sangue. E nem vampiros a lá Anne Rice somos.
Infelizmente somos piores! E rodei, divaguei por todas essa minhas linhas filosóficas para lamentar mais um infeliz acontecimento que ouvi logo pela manhã: a intolerância movendo um vizinho a cometer duplo homicídio e logo em seguida se matar. Duas vidas exterminadas por não saberem viver em sociedade, não entendendo que o seu direto acaba onde começa o direito do seu próximo. Observem comigo quantas vidas em questão de minutos foram radicalmente mudadas! E não falo apenas dos familiares e amigos que terão de conviver com essa tragédia. Falo também por nós que igualmente somos acertados por esse efeito dominó.
Enfim, mais um caso, mais vidas que se exterminam. Amanhã já será notícia velha.
Mas eu continuarei a lamentar e tomo mais uma vez emprestado o famoso título do autor alemão J. M. Simmel "Por quantos ainda vamos chorar?"